Filosofilme: Análise de "Que mal eu fiz a Deus?"

Lançado no Brasil como "Que Mal Eu Fiz a Deus?" e nos EUA como "Serial (Bad) Weddings" (Casamentos (ruins) em série) - é amigos, os norte-americanos são piores para traduzir títulos de filmes que os brasileiros -, "Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu ?" é uma comédia francesa de 2014, dirigida por Philippe de Chauveron.



Christian Clavier, mais conhecido como Asterix, interpreta Claude Verneuil, uma delícia de típico pai de família francês, casado com a católica fervorosa Marie Verneuil (Chantal Lauby) e progenitor de quatro filhas. O problema para papai e mamãe começa quando a primogênita Isabelle (cansei de colocar o nome dos atores) se casa com Rashid, um muçulmano de origem argelina. Odile, a segunda, se casa com o judeu David. A terceira, Ségolène, se casa com o chinês Chao Ling. Todos aparentemente franceses de cidadania, mas não de etnia. A esperança dos pais de ter uma "família normal", cristã, francesa, branquinha, se concentra na mais nova, Laure. Esta de fato arranja um noivo cristão, o comediante Charles, porém, charles é negro, de origem marfinense.

O filme é uma grande metáfora da situação racial na França, temática que tem sido recorrente e que deu origem a ótimos filmes recentes, como Entre les Murs (Entre os muros da escola, 2008) e Deephan (2015). A proposta da película é, basicamente, tratar de maneira suavizada e progressista essa questão tão polêmica no país do fedor iluminismo. E não há jeito melhor de suavizar as coisas que no bom estilo burguês pra frentex hollywoodiano. Todos os conflitos se dão no campo da etnia, não há conflitos de classe, e nem tem por que, são todos de classe média/alta. É até engraçado que, após altas tretas clubistas no começo do filme, o grande marco da união entre os três primeiros genros (muçulmano, judeu e chinês) é quando eles decidem criar um negócio em conjunto, comida orgânica ou algo do tipo, ideia inspirada em algum post do Quebrando o Tabu. O roteiro parece coisa de Larry David ou Christopher Lloyd, muitas vezes no filme a sensação é de que a gente está assistindo a uma SitCom, tipo um Modern Family francês.

A grande deixa para todas as piadas, sempre no já citado estilo SitCom, é a relação nação/raça/religião, tanto entre a família francesa e os genros, quanto entre os próprios genros. Ex: o jantar de família onde um provoca o outro "sem querer", com suas visões bairristas de mundo, até virar uma confusão generalizada. Ou quando a filha mais nova conta aos pais que o noivo é católico mas não conta que é negro, e as quebras de expectativa daí resultantes. Ou ainda o pai africano que quer uma nora negra e o pai francês que quer um genro branco e suas tentativas de sabotar o casamento. Enfim, cada personagem é um arquétipo de uma nação/etnia/religião que constitui a nova realidade da França como um país multiétnico.

Os pais dos noivos representam a antiga mentalidade nacional, com uma identidade étnica bem delimitada e, claro, eles preferem que tudo continue do jeito antigo. O aspecto multiétnico que a família Verneuil ganha chega a ser considerado pelo pai de Charles, um militar, como "comunista" uma ou duas vezes durante o filme. Esse tipo de sentimento já não existe na geração mais nova. As filhas/esposas francesas já não dão a mínima para essa noção nacional/racial/religiosa, e os seus maridos só se prendem a isso como forma de reagirem afirmativamente contra alguma atitude discriminatória, o que não poderia ser diferente, pois metade do humor do filme é em cima de piadas de judeu contra muçulmano contra chinês contra africano contra francês (não necessariamente nessa ordem), sempre no estilo briga de família que acaba com um abraço... Ou com um golpe no pescoço (quem assistiu entendeu).

É marcante o fato da França padrãozinho (branca e cristã) estar representada na figura feminina das filhas/esposas e os imigrantes no papel de noivos, uma vez que a mentalidade colonizadora pressupõe exatamente o contrário. É uma tentativa de romper com o legado imperialista francês, onde é o homem francês, dominador e "civilizador" que desfrutaria das mulheres colonizadas. Aqui a linguagem simbólica do filme lembra muito a teoria da curvatura da vara (pensou besteira que eu sei): a ideia é basicamente que, se uma vara fincada no chão (cada naçãozinha no seu lugar) é puxada para um lado (França invade e toma conta), a tendência é que ela volte com força para o lado oposto (agora é a vez dos antigos colonizados reclamarem seu status na sociedade francesa) antes de se estabilizar novamente. Ou seja, agora é preciso que a vara atinja o lado francês (não pense besteira) antes de se estabilizar novamente. É basicamente uma mensagem contra a extrema-direita xenófoba, passada de forma bastante palatável para a classe média francesa, na tentativa de consolidar essa França multiétnica. 

Porém, fica a dúvida, será que essa França multiétnica de classe média é realmente possível ou os aspectos de classe, naturais das imigrações, são mais fortes e impedem a plena integração desses imigrantes na França? Afinal, a esmagadora maioria dos imigrantes que vão para países como a França, são basicamente pessoas sem muita opção que foram ali tentar uma vida minimamente digna. São proletários, e são mal vistos não só por serem imigrantes, mas também por serem pobres, isso até pelos próprios proletários franceses, pois, além da questão cultural, são reserva de mão de obra. Particularmente creio que qualquer discussão sobre a integração dos imigrantes, que não toca no aspecto de classe, é uma discussão praticamente vazia. Mas essa é uma discussão que dificilmente vai aparecer num filme burguesinho, ainda que progressista e de comédia. 

É algo parecido com o caso dos negros nas SitComs norte-americanas. A família Kyle, de Eu, a patroa e as crianças (My Wife and Kids) é rica; os Banks de Um Maluco no Pedaço (Fresh Prince of Bell Air) é rica; a daquele seriado novo, Black-ish, também. Enfim, é uma característica bem Hollywoodiana essa de diminuir os aspectos de classe, mesmo quando essas produções envolvem uma crítica social foda. Mesmo em Todo Mundo Odeia o Chris (Everybody Hates Chris), onde a família é proletária, há uma minimização do aspecto econômico que envolve a exclusão racial. O pai de Chris, Julius, tem dois empregos, então está tudo bem. O quadro que se pinta das "minorias" nesse tipo de humor é um quadro meritocrático, o grande problema é racial. Economicamente, é só se esforçar que a meritocracia faz seu trabalho.

A indústria cultural estadunidense mostra muito bem suas limitações de linguagem nessas situações. Inclusive, os filósofos alemães exilados na Segunda Guerra, Adorno, Marcuse, Hannah Arendt, acostumados com essa discussão de classe, ficaram espantados como os Estados Unidos era uma país tremendamente conservador e repressivo, mas não conseguia enxergar isso, um tema recorrente na crítica cultural feita por esses autores. A melhor repressão, segundo eles, é aquela que não precisa de um agente externo para fazê-lo, o próprio indivíduo se auto-repreende. Um dos aspectos dessa repressão certamente se dá nas limitações quase que naturais na linguagem até de suas comédias, que são pretensamente provocativas. 

Voltando ao filme, e concluindo, ele tem algumas cenas engraçadas e consegue passar sua importante mensagem com muita leveza. Mas é aquele típico filme para agradar todo mundo, o que acaba enfraquecendo muito a narrativa e talvez o próprio poder da mensagem. Outro ponto negativo é que o filme não desenvolve muito bem seus arcos secundários e acaba com alguns deles sem uma conclusão clara. O fim é previsível, é uma celebração da nova França multiétnica: vive le marrié (vida longa ao casal), diz o patriarca francês Claude Verneuil, e todos dançam o coupé-décalé, uma dança africana, felizes para sempre... Em frente à mansão da família.

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