"A questão não é moral". O chavão da esquerda que mais cheira a derrota.

Intelectuais de esquerda, em suas análises, costumam apartar suas conclusões do campo moral. Um dos clichês mais comuns de se escutar de alguém nessa posição é o tal "a questão não é moral". É curioso porque é o exato oposto do que os exemplos mais vitoriosos na política costumam fazer: moralizar a questão. E sim, a política é uma questão fundamentalmente moral. A vida em sociedade depende de uma moralidade compartilhada e é exatamente isso que as pessoas esperam da política, ainda que não articulem. E se a esquerda nega a moralidade, o campo fica completamente livre para os imorais de direita se esbaldarem na sua hipocrisia e falsa-moralidade. Se a esquerda se torna amoral, os imorais tomam conta.

Tudo bem que, para a maior clareza de certas análises seja necessário tentar isolar a moral. É parte da frieza matemática da ciência, do método, dos dados, da busca por algo de universal. Mas a política enquanto prática se fundamenta na moral. Todo projeto político tem um norte moral. De modo que quando alguém, que tenha qualquer pretensão de alcançar e manter o poder político se coloca numa posição amoral, ou como se isso fosse algo menor ou alheio ao exercício da política, ele já perdeu.

Esse é um problema histórico dos movimentos de esquerda. O anticlericalismo em muitos sentidos necessário, até certo ponto, na passagem do século XIX para o XX, para a construção de uma sociedade laica, na longa marcha da história mostrou suas limitações. A reação veio forte, as igrejas se restabeleceram. O cenário hoje é outro. É preciso incorporar moral e uma visão religiosa dentro do discurso político, mesmo num sentido amplo e não discricional. A máxima pode parecer anti-iluminista, mas política não se separa da religião e da moral. Na verdade, nada se separa na realidade, tudo que se separa é para clareza analítica. A vida real acontece na contráditória junção das coisas.

Não digo nada disso em sentido anti-iluminista ou reacionário. Jamais. Toda a humanidade merece a mesma dignidade e os bons princípios do iluminismo e do socialismo devem ser alcançados. Acontece que a construção desse mundo parte de princípios claros. E não se deve negar a natureza moral desses princípios: universalismo, humanismo, ambientalismo, e todos os ismos das regras de ouro da boa vida, e da boa convivência entre os seres viventes, devem ser considerados se há a pretensão de se chegar a algum lugar.

É chatíssimo, soa a roupa guardada, do fundo de uma gaveta esquecida, esse clichê que nunca funcionou: que a questão não é moral. A questão é cada vez mais moral. O amoralismo que explodiu especialmente a partir do cinismo pós-1968 nos levou até aqui. E as parcas vitórias que as forças da verdade tiveram nesse período foi quando se teve a coragem de se afirmar o caráter moral da vida.

Óbvio que não falo na moral em sentido vulgar, como pequenas regras de etiqueta, vestimenta, vocabulário, etc. Mas no grande sentido, do amor pela verdade, da construção de uma sociedade segura, justa e livre. Sem cinismo, que saiba cobrir as brechas que a malandragem costuma abusar, e o capitalismo é construído para que essas brechas sejam abusadas.

A realidade é total, e a moral é parte não-excludente dessa totalidade. No discurso político, então, é essencial. Por mais que eu não o diga num sentido vulgar. Vivo no mundo, e pela realidade que eu vivo, posso dizer: o discurso de que "a política não é moral", onde eu vivo, não ganha nem para vereador.

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