Intelectuais de esquerda, em suas análises, costumam apartar suas conclusões do campo moral. Um dos clichês mais comuns de se escutar de alguém nessa posição é o tal "a questão não é moral". É curioso porque é o exato oposto do que os exemplos mais vitoriosos na política costumam fazer: moralizar a questão. E sim, a política é uma questão fundamentalmente moral. A vida em sociedade depende de uma moralidade compartilhada e é exatamente isso que as pessoas esperam da política, ainda que não articulem. E se a esquerda nega a moralidade, o campo fica completamente livre para os imorais de direita se esbaldarem na sua hipocrisia e falsa-moralidade. Se a esquerda se torna amoral, os imorais tomam conta.
Tudo bem que para a maior clareza de certas análises seja necessário tentar isolar a moral. É parte da frieza matemática da ciência, do método, dos dados, da busca por algo de universal, ou da fragmentação necessária da realidade para que se faça uma análise dela. Intelectualismos à parte, a política enquanto prática se fundamenta na moral. Todo projeto político parte de um norte moral e anseia por um norte moral. De modo que, quando alguém, que tenha qualquer pretensão de alcançar e manter o poder político, se coloca numa posição amoral, ou como se isso fosse algo menor ou alheio ao exercício da política, ele já perdeu. Aliás, tomemos a direita brasileira como exemplo: eles não tem nada para entregar para a população em termos de projeto de país, de futuro, nada. É o puro entreguismo do patrimônio nacional e o esquema de corrupção do momento. E aí vem o x da questão que faz com que tudo isso seja esquecido pelo eleitorado: a defesa difusa, hipócrita e eleitoreira da moral dominante, e colar na esquerda a pecha de "imoral" e "corrupta". Saber navegar na moralidade pública de senso comum, ainda que de forma estúpidamente falsa, é um dos fatores predominantes de seu sucesso eleitoral.
Esse lugar de antítese à força moral dominante é um problema histórico dos movimentos de esquerda. Daí a atitude histórica tem sido tentar dissociar política e moral. O anticlericalismo, por exemplo, entre os séculos XVIII e XX, foi fundamental para a construção de uma sociedade laica; porém na longa marcha da história, esse princípio mostrou suas limitações. A reação veio forte, as igrejas se restabeleceram. O cenário hoje é outro. Se antes uma separação da política do discurso moral e religioso era parte necessária dos movimentos revolucionários, hoje é preciso reincorporar abertamente uma visão moral e uma visão religiosa dentro do discurso político, num sentido amplo e não discricional. A máxima pode parecer anti-iluminista para um ouvido desonesto, mas a política não se separa da religião e da moral. Na verdade, nada se separa na realidade, tudo que se separa é para clareza analítica. A vida real acontece na contráditória junção das coisas.
Reforço, não digo nada disso em sentido anti-iluminista, anti-humanista ou reacionário. Jamais. Toda a humanidade merece a mesma dignidade e os bons princípios do iluminismo e do socialismo devem ser alcançados. Acontece que a construção desse mundo desejado parte de princípios claros. E não se deve negar a natureza moral desses princípios: universalismo, humanismo, ambientalismo, e todos os ismos das regras de ouro da boa vida e da boa convivência entre os seres viventes, devem ser considerados se há a pretensão de se chegar a algum lugar. É preciso fincar o pé que a defesa desses valores é do nosso campo. Que o outro campo é imoral. A disputa por corações e mentes hoje é muito mais sofisticada que há 200 anos. O processo eleitoral atual e a comunicação instantânea mudaram completamente o jogo.
Para mim, hoje, soa chatíssimo, cheira a roupa guardada, do fundo de uma gaveta esquecida, esse clichê que nunca funcionou: que a questão não é moral. A questão é cada vez mais moral. O amoralismo e o cinismo que explodiu a partir de 1968, nos trouxe, de derrota em derrota, até o cenário triste em que estamos hoje - um mundo em crise permanente. Uma sociedade depressiva, ansiosa e suicida. E as parcas vitórias que as forças da verdade tiveram nesse período foi quando se teve a coragem de se afirmar o caráter moral da vida.
Óbvio que não falo na moral em sentido vulgar, como pequenas regras de etiqueta, vestimenta, vocabulário, sexualidade etc. Mas no grande sentido, do amor pela verdade, da construção de uma sociedade segura, justa e livre. Sem cinismo, que saiba cobrir as brechas que a malandragem costuma abusar - e o capitalismo é construído para que essas brechas sejam abusadas.
A realidade é total, e a moral é parte não-excludente dessa totalidade. No discurso público-político, então, é essencial. No ano da graça de 2026, discurso amoral não cola, não ganha, não chega a lugar nenhum. Por mais que eu não o diga num sentido vulgar, vivo no mundo e o mundo é vulgar. E mesmo na mais baixa vulgaridade do mundo, esse discurso de que a questão "não é moral", não ganha nem para vereador.
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