Tudo precisa de um neologismo. Hiper-real; pós-verdade; decolonial; pós-colonial; anti-colonial; woke; globalismo; alt-right; pós-modernidade, pós-qualquer-coisa, necropolítica, tecno-qualquer-coisa, etc.
A lógica atual não é mais sobre o mundo, o real, a verdade, a vida. É sobre as palavras e a gramática. É controlar a percepção do real como que através de feitiços, no sentido de spell, encantamentos feitos com a voz. O real é secundário, o que importa é definí-lo, com suas palavras, nos seus termos. No meio tempo, nada se resolve e o mundo caminha para o abismo.
Nos ridículos joguinhos de poder dos mais diferentes campos sociais, a lógica é a mesma. Na academia, os doutores se doutoram inventando novos termos para as velhas questões. É como um branding. Se reconhece o autor pela linguagem, e por como ele reorganiza semanticamente e gramaticamente o mundo. E ai de quem perca o trem das palavras, e trate do mesmo problema pela palavra fora de moda, a palavra que já foi superada pela sua versão atual.
Cada campo se organiza numa lingua própria, não para esclarecer o mundo, mas para obscurecer. Só fala quem conhece a língua, e assim se organizam sistemas de castas em diferentes campos do saber. E se a realidade não importa, o que importa é dominar a gramática do campo onde se pretende agir. Na política, a gramática popular, em cada campo, a gramática da técnica. Os psicopatas das palavras de cada campo passam a vida inteiro construindo seu próprio andar na Torre de Babel, e seus adversários passarão a vida toda combatendo o labirinto de platitudes, mentiras e meias-verdades, escritas e faladas em neologismos que nada criaram.
Talvez seja o problema fundamental do capitalismo liberal. Ele permite, conscientemente, deliberadamente, que os ideais tão nobres de liberdade e democracia sob os quais ele se constrói, sejam capturados e distorcidos. E, em vez de impor sua gramática, como fazem as experiências mais abertamente autoritárias, ele cria a confusão e os mesmos parasitas sempre saem por cima, pois esse é exatamente o jogo que mais os favorece. Em último caso, quando eles começam a perder o controle desse caos, o fascismo está sempre à sua mão, e aí sua dominação gramatical sobre as massas ganham contornos mais assertivos. Em todo caso, no capitalismo, seja em sua versão autoritária ou liberal, as palavras servem sempre como instrumentos de dominação. Outros sistemas ruem completamente caso a discrepância com a realidade chege nesses niveis que o capitalismo não somente convive, mas que depende para continuar.
Por trás da farsa da democracia no capitalismo há ainda uma ditadura invisível, a ditadura das palavras sobre o real. Isso não significa que outros sistemas alcancem algo como um "real puro", algo de pretensões ontológicas tão elevadas, nem nada que o cinismo lógico da psicanálise jogou no campo do impossível, a questão não é essa. A questão é que, no capitalismo, não há sequer a tentativa. As palavras não buscam o real, buscam construir um sistema de dominação em si mesmo, um sistema que garanta o predomínio do malandro maior. É um jogo fechado em si mesmo. Um jogo de coringa contra coringa, um jogo onde quem mais distorcer a realidade ao seu favor ganha, e vale tudo, desde que no final, o mundo seja descrito pelas palavras do vencedor.
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